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VIDE: SER DO ENTE

Filosofia Moderna

Martin Heidegger: A QUESTÃO DO SENTIDO DO SER

Positivamente, concernente à tarefa primária de toda ontologia possível, é preciso dizer que ela consiste precisamente na preparação, a preparação para que haja um solo que permita colocar a questão do sentido do ser em geral. A questão do sentido do ser — o que quer dizer ser em geral — não é em absoluto a questão final da ontologia, e esta questão não pode encontrar resposta em adicionando a soma de resultados ontológicos. Ao contrário, a questão do sentido do ser se levanta no início, porque ela deve guiar o sentido possível de toda questão concreta concernindo a estrutura de ser determinada de um ente. Por outro lado, não basta colocar de maneira formal a questão do ser, respectivamente de pretender querer lhe aportar uma resposta também formal. Trata-se ao contrário de compreender que este questionamento concernente ao sentido do ser tem ele mesmo necessidade de uma elaboração, elaboração do solo sobre o qual a interrogação do ente em vista de seu ser é somente possível. É preciso que seja descoberto e elaborado o meio no qual pode e deve se mover em geral a pesquisa ontológica. Sem a descoberta e a elaboração rigorosa deste meio, a ontologia nada é de melhor que a teoria do conhecimento do neokantismo passado. Colocar a questão do sentido do ser, isso quer dizer nada mais do que elaborar a problemática da filosofia em geral. (Gesamtausgabe 19)

Rüdiger Safranski: HEIDEGGER

A questão do ser. Na verdade Heidegger propõe duas perguntas. Uma é: o que entendemos de verdade quando utilizamos a palavra ente? Pergunta-se pelo sentido da expressão. Nessa pergunta Heidegger liga outra bem diferente, pelo sentido do próprio ser. Heidegger afirma, quanto à pergunta em seu duplo sentido, que não existe nem mesmo uma compreensão do sentido da pergunta. Estranha afirmação.

Quanto à indagação pelo sentido do ser (não apenas da expressão), podemos dizer que é a pergunta que ocupa persistentemente a reflexão humana, desde os começos da história até hoje. É a pergunta pelo sentido objetivo e pela importância da vida humana e da natureza. A pergunta pela avaliação (Werten) e orientação para a vida e o por que e para que de mundo, cosmos, universo. A vida moral-prática faz as pessoas indagarem por isso. Em tempos mais antigos, quando física, metafísica e teologia ainda estavam juntas, a ciência também tentou responder à questão do sentido. Mas desde que Kant descobriu que como seres morais temos de fazer a pergunta, mas como cientistas não a podemos responder, desde então as ciências exatas recuam diante dessa pergunta. Mas vida prática moral continua indagando, cotidianamente, na propaganda, na literatura e na reflexão moral, na religião. Como é então que Heidegger pode afirmar que não há mais compreensão para essa pergunta? Ele só pode dizer isso porque pensa que todas essas maneiras de dar sentido, e as perguntas pelo sentido que lhes correspondem, ignoram o sentido do ser. Afirmação ousada, que de imediato coloca o filósofo na luz certa. Pois ele aparece como alguém que redescobre o que ficou esquecido e oculto desde os dias de Platão. Já no "prólogo no céu", Heidegger se apresenta como protagonista de um interlúdio no tempo. Ainda veremos o que ele tem a nos dizer sobre o sentido do ser. Heidegger é mestre em alongar os caminhos. Só podemos nos alegrar verdadeiramente com a luz quando ela aparece no fim do túnel.

Primeiro Heidegger deixa de lado a indagação pelo sentido do ser, que eu chamo de "pergunta enfática". Ele começa com a outra, a pergunta "semântica", que diz: O que queremos dizer ao empregar a expressão ente em que "sentido falamos do ser"? Essa pergunta está absolutamente dentro do contexto das ciências modernas. Cada ciência, a física, a química, a sociologia, a antropologia, etc., elabora um determinado território do ente, ou trata do mesmo território mas com questionamentos e métodos diferentes. Cada consciência metodológica quanto à maneira adequada de abordarmos nosso objeto, implica uma ontologia regional, ainda que não a chamemos mais assim. Por isso não compreendemos direito a afirmação de Heidegger, de que não temos mais clareza quanto ao sentido em que tomamos o ser no território de cada objeto. Exatamente o neokantismo desenvolvera um extraordinário senso da consciência do método. Havia as sutis distinções de Rickert e Windelband entre ciências da natureza e culturais, a hermenêutica de Ditlhey, a sociologia compreensiva de Max Weber, o método fenomenológico de Husserl, a hermenêutica psicanalítica do inconsciente. Nenhuma dessas ciências era metodologicamente ingênua, todas tinham uma consciência ontológica do problema, na medida em que refletiam sobre o seu lugar no contexto total da pesquisa do real. Portanto, para a indagação semântico-metodológica vale o mesmo que para a pergunta enfática pelo sentido do ser. Nas duas vezes Heidegger afirma que não há compreensão para o sentido das perguntas — mas mesmo assim elas são feitas por toda parte. Na vida prática moral, enfática, nas ciências, é a indagação semântico-metodológica.